16/04/2010

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«Eu não me acredito...» e «é suposto que...»

[Pergunta] Muitas vezes (demais, eu acho), ouço pessoas a dizer «eu não me acredito».
Será influência brasileira, das novelas?
Falo de colegas que, p.e., têm trinta e tal/quarenta e poucos anos.
Igualmente, é frequente ouvir os «supostamente» ou o «é suposto que», coisa que eu, tendo frequentado o Curso de Línguas e Literaturas Modernas, me faz sentir tremendamente irritada.
Para já não falar no «Eu, pessoalmente,...».
Como é que essas pessoas, pais/mães de filhos em idade escolar, poderão ajudar a transmitir o que aprenderam e que, pelos vistos, já esqueceram?


Conceição Sá :: :: Portugal


[Resposta] (...) Em relação a «é suposto que» seria imprescindível o contexto para compreender a sua dúvida, ou melhor, o seu protesto. Na ausência desse contexto vou especular um pouco. Suposto é, para além de um adje(c)tivo, como já vimos, o particípio passado do verbo supor, que é um verbo transitivo, com uma utilização não muito frequente na passiva. Com efeito, a maior parte das situações em que é utilizado na forma passiva ocorre na terceira pessoa do singular, constituindo, de certo modo, uma forma fixa, que se inclui no conjunto de expressões que têm como sujeito uma oração relativa livre. Vejam-se os exemplos:

(1) Suponho que acabarei o trabalho dentro do prazo
(2) É suposto que acabarei o trabalho dentro do prazo
(3) Supõe-se que acabarei o trabalho dentro do prazo
(4) É possível que acabe o trabalho dentro do prazo

Tanto em (2) como em (4) a frase introduzida pelo relativo sem antecedente desempenha as funções de sujeito. A grande diferença entre elas é que (2) é a passiva de (1), podendo a mesma mensagem, para além dessas duas estruturas, ser veiculada através da forma pronominal, como se verifica em (3).
Para além disso, existe ainda a locução conjuncional suposto que, com sentido de admitindo que, ainda que.

Em síntese, qualquer das situações que coloca à apreciação do Ciberdúvidas tem o seu lugar e a sua justificação na língua portuguesa. É preciso ter sempre em conta que a língua não é uniforme, que ela se adapta aos mais variados contextos, permitindo-nos comunicar nos mais variados registos. Pela sua exposição parece-me que os exemplos apresentados foram retirados de situações de oralidade. Pelo menos é o verbo ouvir que repete. E todos sabemos que a oralidade, pelas suas cara(c)terísticas, não obedece estritamente às regras do texto escrito.
Permita-me apenas um reparo em relação ao seu texto que, esse sim, é escrito. Vou para isso citá-la: «é frequente ouvir os «supostamente» ou o «é suposto que», coisa que eu, tendo frequentado o Curso de Línguas e Literaturas Modernas, me faz sentir tremendamente irritada.» Diga-me, aquele eu é sujeito de que verbo? Será que quis mesmo escrever «que eu me faz?». Como pode ver «no melhor pano cai a nódoa»… E se não somos um nadinha tolerantes, como queremos que o sejam connosco?
Com o que acabei de dizer, abstenho-me de comentar a sua interrogação final. Caso contrário, teria que lamentar a bitola estreita com que alguns professores medem a enorme variedade da língua portuguesa e, consequentemente, a ideia limitativa que poderão passar em aula.


Edite Prada :: 17/12/2004